Pesquisadores encontram plástico no organismo de peixes amazônicos

Piranha-de-barriga-vermelha (Pygocentrus nattereri) foi uma das espécies encontradas com plástico no estômago/ Crédito: Thomas Males

Material foi identificado no estômago de 80% das 16 espécies avaliadas

Das 8,3 bilhões de toneladas de plástico produzidas no mundo até 2015, cerca de 6,3 bilhões já foram descartadas. Desse montante, 79% está acumulado em aterros ou ambientes naturais. Acredita-se que os ecossistemas aquáticos são os mais impactados pela poluição do material. Recente estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) constatou que até em áreas remotas da bacia Amazônica os peixes estão sendo contaminados pelo plástico.

Segundo a pesquisa, cujo objetivo era investigar a alimentação de peixes nativos do rio Xingu, foram encontrados fragmentos de plástico no estômago de 80% das espécies examinadas. No total foram avaliados 172 indivíduos de 16 espécies, incluindo pacus e piranhas.

Este foi um dos primeiros indícios da poluição plástica na bacia Amazônica. Ao analisar o conteúdo estomacal dos animais, os cientistas encontraram restos de garrafas, sacolas e até equipamentos de pesca. O diâmetro dos fragmentos variou entre um e 15 milímetros. Em 46 peixes foram encontrados 96 detritos, sendo mais de um quarto composto de polietileno. O material é frequentemente empregado na confecção de utensílios de pesca, como linhas e redes, indicando que a maior parte dos resíduos é proveniente da pesca fantasma – quando itens de pesca são descartados ou perdidos na água.

De acordo com levantamento realizado pela WWF-Brasil, pelo menos 640 mil toneladas de redes, boias e anzóis ficam à deriva nos oceanos todos os anos. Em cursos de água doce o problema se repete. A intensificação do uso de redes de emalhe já é o fator de maior pressão para duas espécies de boto da Amazônia: o boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) e o tucuxi (Sotalia fluviatilis).

O lixo descartado em toda bacia Amazônica também contribui para o acúmulo de plástico no organismo dos peixes. Estimativas recentes indicam que a quantidade de resíduos que o rio Amazonas despeja no oceano Atlântico chega a 60 mil toneladas por ano. Muitos produtos de plástico, ao serem descartados na natureza, se fragmentam em micropartículas que, pela espessura ultrafina, escorrem facilmente pelos ralos e acabam nos cursos d’água.

Com tamanho semelhante a partículas de comida, os animais confundem detritos de plástico com alimentos de sua dieta. Para especialistas, o consumo de plástico em peixes herbívoros está relacionado à semelhança do material com folhas e frutas. Em espécies carnívoras, a exemplo das piranhas, a contaminação se dá por meio da ingestão de presas com plástico no organismo.

A pesquisa verificou que não houve diferença no consumo de plástico entre onívoros, herbívoros e carnívoros, mas animais maiores mostraram-se mais vulneráveis à ingestão de resíduos. Isto por que geralmente ocupam o topo da cadeia alimentar, alimentando-se de mais alimentos e presas contaminadas.

“Embora tenhamos examinado o conteúdo estomacal de espécies de apenas uma família de peixes de água doce, nossos achados indicam que a poluição plástica na Amazônia já está afetando a fauna aquática”, pontou o levantamento.

Cientistas alertam para os efeitos que o lixo pode causar nos ecossistemas, impactando também a saúde humana e a segurança alimentar. Em sua segunda fase, a pesquisa vai analisar os impactos do plástico nos cursos d’água de Belém, onde há esgoto sem tratamento e grande volume de resíduos sendo despejado nos canais da cidade.

 

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