Pássaros silvestres estão se tornando cada vez mais urbanos

Sabiá-laranjeira é um exemplo de ave silvestre que se adaptou ao meio urbano no Brasil / Crédito: Instituto Passarinhar / divulgação

Desmatamento e uso intensivo de agrotóxicos impulsionam aves para centros urbanos; algumas espécies conseguem se adaptar e aumentar populações, outras têm reduções

Destruição de habitats e uso intensivo de agrotóxicos têm impulsionado uma mudança na ocupação territorial dos pássaros. Cada vez mais espécies estão ocupando as cidades e ampliando sua população. A conclusão é de estudo recentemente publicado no periódico especializado The Condor: Ornithological Applications.

Cientistas da Universidade de Illinois Urbana-Champaign refizeram um levantamento realizado inicialmente entre 1906 e 1909 para compreender as mudanças de habitat das aves do estado americano de Illinois. O grupo analisou 66 espécies: 40 se adaptaram aos meios urbanos e aumentaram sua população, enquanto as 26 restantes sofreram redução. Os pesquisadores acreditam que essa amostragem pode ser replicada em qualquer lugar urbanizado do mundo com um enorme grau de semelhança.

Isso se deve ao fato de que "os habitats urbanos tornaram-se mais favoráveis aos pássaros, à medida que a agricultura se desenvolveu e o gesto de dar comida às aves se tornou mais popular", segundo o ornitólogo Michael Ward, professor do Departamento de Recursos Naturais e Ciências Ambientais da Universidade de Illinois Urbana-Champaign. Ao longo do século XX, as pequenas e diversificadas plantações, antes um prato cheio para as aves, se transformaram em vastas monoculturas de milho e soja com manejo industrial, ou seja, uso intensivo de herbicidas e pesticidas.

"O que entendemos é que aquelas espécies que podem tirar proveito de habitats alternativos conseguem expandir suas populações", disse Ward. O próximo passo é compreender quais espécies são capazes dessa adaptação e quais não são. "Isto nos permitirá prever melhor quais precisam de esforços de conservação. Habitats urbanos são os em que muitas espécies têm conseguido procriar mais. A população em geral, ao fornecer alimentação e um certo abrigo em seus quintais, tem a oportunidade de ajudar uma variedade enorme de espécies", afirmou.

No Brasil, o sabiá-laranjeira é um exemplo de adaptação ao meio urbano. Na capital paulista, o sabiá está entre as mais carismáticas das 285 espécies que vivem na cidade - ao lado de bem-te-vis, maritacas, quero-queros, juritis, sanhaços e pica-paus. É uma ave que prefere os parques, mas também pode ser flagrada descansando nos fios elétricos, ao lado de pardais e pombas.

Em 1966, o ornitólogo Johan Dalgas Frisch, atualmente presidente da Associação de Preservação da Vida Selvagem, encabeçou uma campanha pela preservação dos sabiás pedindo para as pessoas plantarem árvores frutíferas em seus quintais. "Porque os passarinhos precisam de restaurantes", argumentava ele. A campanha deu certo e as aves voltaram a se espalhar pelas cidades.

Contudo, essa adaptação ao meio urbano também gerou impactos na saúde da ave. Estudo desenvolvido com base em mais de 10 mil registros feitos pela população mostra que o sabiá paulistano sofre de insônia: começa a cantar cinco horas antes que seus primos do interior e só para quatro horas depois do fim do expediente. Essa brusca mudança de comportamento se deve ao barulho excessivo dos carros, que levou a ave a procurar horários alternativos. O ruído causado pelos carros nas ruas de São Paulo, atualmente, oscila entre 70 e 100 decibéis. Um sabiá-laranjeira consegue cantar, no máximo, até 70 decibéis. O pássaro canta para conquistar a fêmea e, assim, acasalar, mas, segundo biólogos, o sabiá paulistano só está encontrando condições para se comunicar, para ouvir e para ser ouvido no silêncio da madrugada.

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