Sapos fogem do calor e seca em espécie de hibernação

Sapo da espécie Pleurodema diploslister após estivação / Crédito: Carlos Jared/BBC

Fenômeno é chamado estivação: anfíbios reduzem atividades metabólicas por longo período, que pode chegar a mais de dois anos em algumas espécies

Assim como os animais que hibernam, como os ursos, os anfíbios também vivem um processo semelhante, chamado estivação. O fenômeno ocorre com vários anfíbios que vivem em desertos ou ambientes com escassez de água, ao menos temporária.

Em 1992, no município de Angicos, na Caatinga do Rio Grande do Norte, Carlos Jared e Marta Maria Antoniazzi, pesquisadores do Instituto Butantan, presenciaram um fato curioso: sapos começaram a brotar aos borbotões do chão arenoso, como se estivessem à procura de poças d'água para se alimentar e acasalar. Desde então eles estudam a estivação, processo no qual os anfíbios reduzem suas atividades metabólicas por um longo período, que pode chegar a mais de dois anos em algumas espécies.

"Semelhante à hibernação, induzida pelo frio excessivo, pode-se definir a estivação como o estado de letargia em que esses animais entram em um longo sono, quando as condições climáticas se tornam muito secas e quentes", explicou Jared. Apesar das condições adversas, há mais de 40 espécies de anfíbios na Caatinga, segundo os pesquisadores.

Ao longo de 30 anos de pesquisas, o casal realizou 15 expedições científicas, sendo 10 em locais de maior probabilidade de surpreender os animais em estivação. Durante a seca, para se defender da desidratação, os animais se enterram ou procuram micro-habitats onde exista umidade e a temperatura se mantenha mais fria em relação ao meio ambiente.

Entre as espécies analisadas, duas se destacam com comportamentos extremos. O primeiro é o sapo australiano Neobatrachus aquilonius, que durante um mês de preparação para a seca, secreta até 45 camadas de pele que formam um casulo, onde ele aguarda as chuvas e um clima mais ameno. Outra espécie, a Scaphiopus couchii, vive em desertos norte-americanos e demora cerca de quatro horas para sair da dormência, quando perturbado.

Os anfíbios brasileiros que vivem na Caatinga e estivam não são extremistas. Eles não entram num torpor tão intenso quanto os sapos australianos e norte-americanos, mas ficam em um estado de depressão fisiológica moderado, com queda pela metade do consumo de oxigênio - medida que indica o gasto de energia. Embora fiquem enterrados na areia, numa profundidade que pode chegar até 1,80 m, ao serem encontrados e tocados eles saltam de imediato, mostrando que seus músculos não se atrofiam durante a estivação. Já outras funções do metabolismo são alteradas: o estômago permanece vazio, o intestino encolhe e os ovários das fêmeas ficam cheios, prontos para liberar óvulos assim que chova.

Entender os mecanismos de defesa dos anfíbios durante a estivação pode ajudar os pesquisadores a compreender, por exemplo, de que forma as mudanças climáticas irão impactar não somente estes grupos de anuros, mas também outros animais.

 

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