Aquecimento global desequilibra ciclo de vida da flora Amazônica

Para cientistas, ritmo das mudanças climáticas excede capacidade de adaptação da floresta

As mudanças climáticas estão alterando a composição das árvores da floresta Amazônica. A constatação é de um grupo de mais de cem cientistas de 30 instituições. O alerta, publicado no periódico científico Global Change Biology, ocorre após 30 anos de monitoramento de milhares de espécies arbóreas existentes no bioma.

O estudo mostrou que efeitos do aquecimento global, como aumento da temperatura, estações secas mais severas e níveis mais altos de CO2 na atmosfera, mudaram toda a dinâmica de crescimento e mortalidade de algumas espécies. Ocorreu de gêneros adaptados à seca tornarem-se mais abundantes, enquanto os associados à umidade passaram a morrer com maior facilidade nos locais em que a seca se intensificou.

Mas os cientistas destacam que a substituição das espécies não está ocorrendo na mesma velocidade das mudanças climáticas. De acordo com a autora principal do estudo, Adriane Esquivel Muelbert, da Escola de Geografia de Leeds, "os dados nos mostraram que as secas que atingiram a bacia amazônica nas últimas décadas tiveram sérias consequências para a composição da floresta, com maior mortalidade das espécies arbóreas mais vulneráveis".

Os pesquisadores também observaram que as árvores de maior porte, que formam as coberturas de dossel (estrato superior das florestas), estão competindo com as de menor porte e as suprimindo. Isso ocorre por que as árvores maiores estão se beneficiando com o aumento do CO2, enquanto as espécies de estatura menor ficam mais vulneráveis a secas, em função de suas raízes mais rasas.

Árvores do mesmo gênero da castanha-do-brasil (Bertholletia excelsa) e da mama-cadela (Brosimum gaudichaudii) tiveram considerável aumento por conta da adaptação ao clima seco. Por outro lado, árvores do gênero do Ingá (Inga edulis) e da Itaúba (Mezilaurus itauba) sofreram grandes baixas populacionais. As palmeiras foram algumas das que mais sentiram as mudanças do clima, com exceção do açaí, que até então se adequou bem ao aquecimento do planeta.

As espécies pioneiras - que brotam e crescem em quase todo lugar - também estão tirando proveito da situação, já que a morte de outras variedades abre espaço para elas se proliferarem. Contudo, a pesquisa alerta para o crescimento desordenado dos gêneros pioneiros, visto que podem acarretar perda de muitas espécies e, consequentemente, desiquilíbrio no ecossistema.

Os especialistas destacaram a urgência de conservação da Amazônia, considerando que florestas tropicais são os ecossistemas de maior biodiversidade do mundo e que fornecem recursos essenciais para manutenção da vida.

"Nossas descobertas destacam a necessidade de medidas rigorosas para proteger as florestas intactas existentes. O desmatamento para agricultura e pecuária é conhecido por intensificar as secas nesta região, o que está exacerbando os efeitos já causados pela mudança climática global", salientou o coautor do trabalho, Kyle Dexter, da Universidade de Edimburgo.

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