Consumo de animais silvestres favorece propagação de doenças

Crocodilos à venda em mercado chinês./Crédito: Aleksandar Plavevski - EPA

Estima-se que 60% das doenças infecciosas emergentes são de origem animal.

Com evidências científicas relacionando a pandemia do novo coronavírus com o comércio de animais silvestres – extremamente comum na China, onde surgiu a doença – organizações em todo o mundo pedem o fim dos mercados de vida selvagem. Estima-se que 60% das doenças infecciosas emergentes são de origem animal e a maior parte delas provêm de espécies silvestres.

Em carta enviada à Organização Mundial da Saúde (OMS), a World Animal Protection e mais 200 organizações pedem o banimento desses mercados, tendo em vista os riscos de proliferação de doenças devido às condições insalubres nas quais os bichos são submetidos.

Para a diretora-executiva da World Animal Protection, Helena Pavese, o banimento evitaria “condições não regulamentadas e anti-higiênicas para os animais e a proximidade entre humanos e espécies exploradas, que gera a oportunidade perfeita para a propagação de patógenos”.

Considerando os riscos às saúdes humana e animal, a secretária executiva da Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU, Elizabeth Maruma Mrema, também defendeu a proibição global dos mercados de animais para ajudar “na conservação da vida selvagem e na nossa proteção contra contatos impróprios com espécies silvestres”, disse ao The Guardian.

Zoonoses X mercados úmidos

Não é a primeira vez que cientistas atrelam a disseminação de doenças zoonóticas, transmitidas por animais, ao contato com espécies silvestres. Outras doenças, como SARS, MERS e ebola, também estão relacionadas com zoonoses e com a venda de animais selvagens.

A origem do SARS-CoV-2 ainda não foi comprovada, mas acredita-se que o primeiro paciente infectado na China tenha consumido um morcego ou pangolim de mercados locais. Muitas espécies de morcegos são reservatórios naturais para vírus, por isso consumi-los é uma forma de propagar patógenos.

O mercado de frutos do mar Huanan, na cidade de Wuhan, é um dos principais centros de distribuição de animais silvestres na China e tem sido considerado o marco zero do coronavírus. Nas feiras são comercializados – vivos e mortos – ratos, serpentes, pangolins, morcegos e até filhotes de lobos.

Esses locais são conhecidos como mercados úmidos, devido ao grande volume de sangue e vísceras que escorre pelas bancadas de abate. Além da higiene precária, os produtos comercializados são extremamente perecíveis. Animais exóticos, domésticos e de todos as origens são confinados em gaiolas apertadas, gerando estresse e difusão de doenças entre os bichos.

Desde o surto de SARS zoonótica, em 2003, a China criou uma série de regras para controlar os mercados de animais. Porém, a grande procura por produtos da fauna silvestre e a quantia exorbitante que movimenta a indústria animal, faz com que as autoridades chinesas negligenciem o problema. Após a crise provocada pelo Covid-19, o comércio até foi interrompido, mas temporariamente.

O consumo de animais silvestres ainda está enraizado na cultura chinesa, dificultando a adoção de legislações mais rigorosas. No século passado, a caça foi meio de subsistência para grande parte da população e até hoje existem comerciantes, cujo sustento depende da venda de espécies selvagens.

Em estudo publicado na revista Science, no final de março, pesquisadores sugeriram medidas para banir os mercados sem prejudicar a economia local. A ideia é criar subsídios e apoios financeiros para que os produtores de animais silvestres possam substituir seus “produtos” e transformar a medicina tradicional chinesa, abolindo itens de origem animal.

Para evitar futuros riscos para a saúde pública, os especialistas clamam a proibição permanentemente do consumo de espécies selvagens. A organização Animal Equality  lançou uma campanha global para que os países a fechem imediatamente os mercados úmidos. Assine a petição e ajude a acabar com essa crueldade!

Desequilíbrio ecológico

Embora o consumo de animais silvestres seja uma das principais causas da propagação de doenças zoonóticas, como o novo coronavírus, há outros fatores que interferem nas pandemias. O crescimento urbano desordenado, por exemplo, promove a destruição dos ambientais naturais, fazendo com que morcegos e outros animais portadores de vírus se aproximem das cidades.

A secretária executiva da ONU, lembrou o surto do vírus Nipah, na Malásia, que pode ter sido consequência de incêndios florestais, desmatamento e seca. A destruição ambiental fez com que morcegos, portadores naturais do vírus, saíssem das florestas e fossem em direção às plantações. Primeiro eles infectaram agricultores e a doença logo proliferou.

“Preservar ecossistemas intactos e a biodiversidade nos ajudará a reduzir a prevalência de algumas dessas doenças. Portanto, a maneira como cultivamos, como usamos os solos, como protegemos os ecossistemas costeiros e como tratamos nossas florestas destruirá o futuro ou nos ajudará a viver mais tempo ”, destacou Elizabeth Mrema.

 

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