Ritual gastronômico ameaça ave de extinção

Ave ocorre na Europa e Ásia/ Crédito: Michel Idre/ Flickr

Para produzir iguaria francesa, ortolan recebe superalimentação que o torna quatro vezes maior que seu tamanho natural e tem os olhos arrancados

Embora sua caça seja proibida desde 1979 pela União Europeia, o pássaro ortolan (Emberiza hortulana) continua sendo morto para satisfazer prazeres gastronômicos da sociedade. A ave é a figura principal de um dos pratos mais excêntricos da França, na qual suas vísceras, pés e até ossos são devorados.

Os maus tratos cometidos contra o ortolan – ou sombria, em português – são semelhantes aos praticados a patos e gansos que dão origem ao foie gras, uma iguaria francesa de fígado de pato. Nos dois casos, os animais são confinados para ganhar peso, recebendo quantidades excessivas de comida. Em relação ao ortolan, a superalimentação faz com que ele fique quatro vezes maior que seu tamanho natural. A ave passa por um cruel processo de confinamento, que inclui viver em gaiolas minúsculas e ter os olhos arrancados para acelerar o ganho de peso.

Após todo sofrimento, a ave morre afogada em uma bebida francesa de luxo – armagnac – para depois ser consumida em um ritual medonho, no qual o degustador cobre a cabeça com um pano até o término da refeição. Não é permitido o uso de talheres e, de todo o corpo do animal, só sobra o bico. A prática ganhou popularidade após ser encenada na série americana Billions, chocando as pessoas ao redor do mundo.

Na região de Landes ocorre o maior número de capturas, pois lá está uma das rotas migratórias do ortolan. Apesar de o presidente francês Emmanuel Macron ter prometido endurecer as regras contra a caça, as autoridades locais ainda são tolerantes com os caçadores. O argumento é que eles são, em maioria, idosos, portanto a prática está com os dias contatos. As organizações conservacionistas discordam, ressaltando o aumento da demanda por ortolans no mercado negro. Em grandes cidades, o pássaro pode ser vendido por aproximadamente 150 euros cada (R$ 628).

Além de maltratar milhares de animais, o ritual aumenta as chances de extinção da espécie. Um grupo de cientistas do Museu de História Natural da França acredita que sem ações de conservação, a espécie pode desaparecer. Em estudo publicado em maio deste ano, os pesquisadores indicaram que as mudanças do clima e desaparecimento dos insetos, relacionado ao uso abusivo de agrotóxicos, são fatores que colocam a ave cada vez mais em perigo. Sem a caça, a espécie teria o dobro de chances de sobreviver.

Ortolan

Com ampla distribuição nos continentes europeu e asiático, o ortolan é uma ave de pequeno porte, identificada pela cabeça esverdeada e corpo marrom. Pode ser encontrado em grande variedade de habitats, principalmente desertos, terrenos agrícolas, campos de arbustos, bordas de matas e clareiras. Sua alimentação é basicamente composta por sementes, podendo ingerir também pequenos invertebrados, como formigas, besouros e gafanhotos.

Rua Antares, 100, Santa Lúcia
Belo Horizonte / MG CEP: 30360-110
Telefone: (31) 3291 0661

Assine e receba as novidades e notícias sobre nossas ações, eventos e meio ambiente