Retomada verde pode aumentar PIB, gerar empregos e reduzir emissões

Carolina Genin/ Crédito: Arquivo Pessoal

Os esforços para combater a pandemia do novo coronavírus mostraram que é possível mudar hábitos e tendências de consumo em um curto espaço de tempo. Cada vez mais cresce o debate sobre o “novo normal” e como deve ser a retomada econômica pós-pandemia.

Em entrevista à Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, a diretora do programa de Clima do World Resources Institute (WRI-Brasil), Carolina Genin, falou sobre os ganhos da retomada verde no país. Ela é uma das autoras do estudo “Uma Nova Economia para uma Nova Era: Elementos para a construção de uma economia mais eficiente e resiliente para o Brasil”.

Carolina é bacharel em Comunicação Social pela PUC-Rio e mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela London School of Economics and Political Science (LSE).

Confira a entrevista:

Coalizão - Carolina, contextualize, por favor, a velha e ainda atual economia brasileira e como seria essa nova economia.

C.G - A economia atual, não apenas brasileira, mas a do mundo inteiro, é a que se estabeleceu no século 20, dependente de combustíveis fósseis e de tecnologias e infraestruturas técnicas que hoje se mostram ultrapassadas. Nós já temos como melhorá-las. É possível fazermos uma transição para uma nova economia, de baixo carbono, menos dependente de combustíveis fósseis. É uma economia benéfica para todos do ponto de vista climático, claro, porque reduz significativamente a quantidade de emissões da nossa economia. Mas a nossa pergunta, a que motivou o estudo, foi saber se ela também seria benéfica do ponto de vista econômico para nosso país.

Coalizão - Como vocês chegaram a esse modelo do estudo?

C.G - O estudo foi inspirado na New Climate Economy (NCE). Essa iniciativa global é feita por um grupo de pesquisadores e o WRI Global coordena. Foram pesquisas que começaram a pedido de tomadores de decisão, entre eles ex-ministros e ex-presidentes. Ou seja, pessoas que já passaram por grandes cargos e queriam saber o que realmente significaria para a economia global se fossem implementadas as mudanças que nós solicitamos nas negociações climáticas. E os estudos da NCE mostraram um saldo positivo e uma situação de “ganha-ganha” – um melhor clima geraria melhor economia, porque cria empregos e investimentos em novas infraestruturas com uso de novas tecnologias. Isso não significa que a infraestrutura antiga não sirva mais, mas que aquelas que precisam de manutenção ou mesmo serem refeitas já podem ser construídas nesse novo modelo, com cimento de ponta, por exemplo. E países de continentes como a África e a América do Sul, que ainda precisam construir, já poderiam fazer isso dentro de uma nova lógica.

Coalizão - Esse foi, então, o ponto de partida para o estudo brasileiro?

C.G - Sim, já conhecíamos o caminho, mas queríamos entender até que ponto essa premissa do ganha-ganha funcionaria em países em desenvolvimento como o nosso, em um cenário fiscal difícil, que já enfrentávamos antes da pandemia. Quando a pandemia chegou, nós paramos para avaliar se ela jogaria por terra tudo o que concluímos. E chegamos à conclusão que não, ela não invalida, pelo contrário. O Brasil, como vários países do mundo, está se vendo em um momento de ter de investir para a retomada da economia, o que não estava previsto.

Esta é a primeira crise econômica em que a sociedade está considerando uma retomada verde. Isso nunca aconteceu antes. Se é preciso, por exemplo, aquecer a economia fazendo obras, é uma oportunidade de ouro para que o país invista em novos mercados, novas tecnologias deste século. Essa é uma decisão que o Brasil – e os outros países – precisam fazer. Ou investe em um novo modelo econômico ou permanece no atual, mas é alto o risco de ficar aprisionado em tecnologias que rapidamente se tornarão obsoletas. E estamos falando disso não como defensores do clima apenas, agora temos dados econômicos. Esse novo caminho pode levar o Brasil a ser mais produtivo, mais competitivo e mais eficiente. Principalmente na agricultura.

É importante salientar que estamos aperfeiçoando esses números diante agora dos novos cenários de saída da crise. Virão, então, novos resultados que não cancelam os anteriores, mas contribuem para especificá-los.

Coalizão - Conte sobre essas evidências de vantagens para o Brasil na transição para uma economia de baixo carbono.

C.G - Fizemos três tipos de modelagens para esse estudo – o business as usual, que é como está; Nova Economia para o Brasil (NEB); e Nova Economia para o Brasil plus (NEB+).

Modelagem nada mais é do que cenário. Casamos a modelagem criada pelos economistas da New Climate Economy para os estudos globais e cruzamos com a do professor Roberto Schaeffer, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que foi a base da NDC brasileira. Esse “combinado” nos permitiu obter números mais realistas para o Brasil, com uso de dados produzidos aqui.

O cenário NEB envolve uma série de medidas de baixo carbono, como veículos híbridos e elétricos, maior uso de carvão vegetal no segmento de ferro, redução da perda de alimentos e mesmo nível de produção agrícola, por exemplo. Essas medidas, juntas, permitiram diminuir a área de terra cultivada e restaurar áreas degradadas. Já o NEB+ é semelhante ao cenário anterior, mas metade do uso da terra, que no cenário NEB voltaria a ter nativas, seria destinada neste caso à agricultura de alta produtividade.

Dito isso, a primeira evidência apontada por essas modelagens é que o Brasil cresce mais e gera mais emprego em qualquer cenário que não seja o business as usual. Isso é muito importante, porque mostra que independentemente do que acontecer – seja uma transição grande ou menor – os cenários indicam que, usando as mesmas métricas tradicionais, a gente tem a ganhar mudando para uma economia de baixo carbono.

Outra evidência interessante foi obtida por meio de revisão de literatura. Foi feita uma revisão muito vasta e os pesquisadores do IPEA acharam números novos e inéditos na área de agricultura, por exemplo, relacionados a pastagens. Dessa forma eles conseguiram quantificar a ineficiência das pastagens brasileiras, mostrando que os estabelecimentos agropecuários poderiam aumentar a produção em 30% apenas com intensificação. Seria possível produzir o dobro pela área dedicada. Esse número potencializa as conclusões que a Coalizão já vinha apontando e trazendo de maneira qualitativa.

Além disso, o estudo traz dados da Climate Policy Initiative (CPI) com o Banco Mundial que apontam que, se houver melhoria no investimento de infraestrutura no país, teríamos retorno desse valor em três anos. Esse é apenas um dos exemplos de payback positivos. Outro exemplo: no caso de melhorar o acesso rural a produtores dispostos a adotarem práticas sustentáveis ou a recuperar suas áreas degradadas, o payback é de seis anos, muito curto para o produtor e para o investidor. É muito produtivo.

Coalizão - Você pode comentar os grandes achados do estudo, para além do incremento de R$ 2,8 trilhões no PIB até 2030?

C.G - Casando os dados e as modelagens, nos preocupamos em calcular não apenas os ganhos econômicos, mas também sociais e ambientais. São apontados mais de 2 milhões de empregos gerados e de melhor qualificação, automatizando aqueles empregos que são muito próximos da mão de obra escrava. Especialmente destacamos nessa questão o papel estratégico de investimento na ATER (Assistência Técnica e Extensão Rural) que, se implementada, gera esses empregos mais técnicos e maior produção, abrindo ainda mais oportunidades. Seria ainda uma forma de reter os jovens capacitados no campo.

Outro tema interessante é a área de energia. O Brasil tem muitas tecnologias em energia renovável que poderiam ser escaladas e substituir o combustível fóssil, especialmente em cidades mais distantes dos grandes centros. Uma cidade no interior do Nordeste, por exemplo, não precisaria mais comprar combustível de fora, poderia gerar energia a partir de painéis elétricos, energia eólica e biomassa. Isso impulsionaria a economia local, porque o acesso à energia seria mais barato, criaria serviços de manutenção de peças, quem sabe de fabricação local. E indiretos – com mais energia elétrica você pode ter mais salões de cabeleireiro e uma infinidade de outros serviços que não computamos. Além dos empregos verdes, portanto, teríamos outros que viriam junto.

E seria possível a restauração de 12 milhões de hectares de pastagens degradadas, uma redução de 42% nas emissões de gases de efeito estufa em 2025, na comparação com os níveis de 2005. Isso tudo nos tornaria um país menos desigual, mais competitivo, livre de desmatamento e ainda mais capaz para atrair investimentos internacionais.

Coalizão - Por que até hoje essa transição ainda não aconteceu, se ela traz tantas vantagens?

C.G - A resposta é simples: é difícil mudar o mainstream. Essa é uma realidade que já está posta, muita gente ganha dinheiro dessa forma, e a economia verde era, até então, uma visão de gente como nós, carinhosamente chamados até de “abraçadores de árvore”. Agora é que a lógica econômica está se aproximando. Agora conseguimos conversar com instituições financeiras, empresariado e estamos chegando perto do mainstream. As questões climáticas e a economia de baixo carbono deixaram de ser algo de nicho, de quem não entende de economia e finanças. Essa é a transformação. São os bancos e o setor corporativo que farão migrar a nova economia para o mainstream. E aí estará feito.

Algo que tem chamado a atenção de quem recebeu o estudo é o fato de que não estamos falando em uma transição disruptiva. Trata-se de uma transição leve, com tecnologias, práticas e legislação já existentes. As vantagens são para os principais setores da economia brasileira – infraestrutura, agricultura e indústria -, com aumento imediato de produtividade, crescimento, eficiência e competitividade para os setores.

 

Fonte: Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura

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