Espécie da vez

Periquito-cara-suja volta a se reproduzir na Caatinga após mais de 100 anos

Nascimento de filhotes em reserva entre Ceará e Piauí marca avanço na reintrodução da espécie ameaçada de extinção

Periquito-cara-suja volta a se reproduzir na Caatinga após mais de 100 anos

O periquito-cara-suja, ave símbolo da Caatinga e ameaçada de extinção, voltou a se reproduzir em vida livre após mais de 100 anos de desaparecimento na região. O registro ocorreu na Reserva Natural Serra das Almas, entre Ceará e Piauí, no dia 17 de março deste ano. O evento marca a primeira reprodução da espécie na área em mais de um século, indicando a eficiência do processo de reintrodução e representando um marco para a conservação ambiental no Brasil.

De acordo com o Projeto Cara-Suja, a espécie passou mais de cem anos desaparecida da Serra das Almas e voltou a ser reintroduzida gradualmente. Atualmente, há 23 indivíduos vivendo em liberdade na reserva, como resultado de um trabalho iniciado em 2024. A reprodução ocorreu em caixas-ninho artificiais que simulam ocos de árvores, onde foram registrados 33 ovos. Segundo o coordenador da iniciativa, Fábio Nunes, o nascimento dos filhotes em pouco tempo demonstra a capacidade de adaptação da espécie ao novo ambiente. Ele também destacou que o processo apresentou desafios, como o reconhecimento de fontes de alimento, a identificação de predadores e a ocupação do território.

O projeto aponta que o ciclo reprodutivo é um dos principais sinais de adaptação da espécie ao ambiente, favorecendo o crescimento da população nos próximos anos, caso as condições permaneçam favoráveis. A sobrevivência ainda depende de fatores como adaptação ao clima da Caatinga e riscos naturais, incluindo predação e disponibilidade de alimento. Conforme Ariana Ferreira, analista de projetos socioambientais da Associação Caatinga, a quantidade de ovos superou as expectativas, indicando um cenário positivo para a espécie na reserva.

Parte das aves que hoje habitam a Serra das Almas foi resgatada e reabilitada pelo Parque Arvorar, em parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A ação integra o Projeto Refaunar Arvorar, que busca reintroduzir espécies desaparecidas ou reduzidas na Caatinga. Além da soltura dos animais, o projeto realiza o preparo do ambiente, com plantio de espécies nativas, instalação de comedouros e monitoramento contínuo. Segundo o diretor da Associação Caatinga, Daniel Fernandes, essas ações são fundamentais para o sucesso da iniciativa.

A espécie também foi reintroduzida no Parque Nacional de Ubajara, a cerca de 144 km da Serra das Almas, em 2025, por meio de uma parceria entre a Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Atualmente, a população soma 50 ovos e 28 filhotes, que recebem acompanhamento diário das equipes, incluindo manejo, coleta de material genético e anilhamento. Os resultados obtidos nas duas áreas reforçam a importância do trabalho conjunto entre instituições como Associação Caatinga, Arvorar, ICMBio, Ibama e organizações internacionais de conservação.

*Com informações do portal G1