Opinião

A concentração de CO2 atinge o maior nível em 5 milhões de anos
09 de Julho de 2018

*José Eustáquio Diniz Alves

A Concentração de CO2 na atmosfera ultrapassou 410 partes por milhão (ppm) no mês de abril e atingiu 411,25 ppm em maio de 2018, praticamente, um dos maiores valores dos últimos 5 milhões de anos. O nível minimamente seguro, para evitar um colapso climático de grandes proporções, é de 350 ppm.

Portanto, a concentração de gases de efeito estufa (GEE) ultrapassou permanentemente o limiar de 400 partes por milhão e atingiu um perigoso ponto de não retorno. Nos 800 mil anos antes da revolução industrial, a concentração de CO2 na atmosfera ficou abaixo de 280 partes por milhão (ppm). Ou seja, em cada um milhão de moléculas de ar no planeta, havia menos de 280 do principal gás de efeito estufa. As medições com base no estudo do gelo, mostram que em 1860 a concentração atingiu 290 ppm. Em 1900 estava em 295 ppm. Chegou a 300 ppm em 1920 e atingiu 310 ppm em 1950. A partir do início do Antropoceno (1950), o efeito estufa se acelerou.

Em 1958, Charles Keeling, instalou no alto do vulcão Mauna Loa o primeiro equipamento para medir as concentrações de CO2 na atmosfera. Isto possibilitou que a partir de uma série histórica de dados houvesse a possibilidade de acompanhar a poluição recente. A série de Keeling mostra que a concentração de CO2 na atmosfera, na média mensal, chegou a 399,76 partes por milhão (ppm) em maio de 2013 e só ultrapassou a barreira de 400 ppm no ano seguinte. Em 2015, a marca das 400 ppm foi ultrapassada em 8 dos 12 meses. Na média anual, 2015 foi o primeiro a marcar a cifra de 400,83 ppm. Em 2016 a marca de 400 ppm foi ultrapassada em todos os meses e em todas as semanas. A média anual de 2016 foi de 404,21 ppm.

A National Oceanic & Atmospheric Administration - NOAA - (Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) apresenta o gráfico abaixo com o crescimento médio anual (e por décadas) da concentração de CO2. Nota-se, que apesar das variações anuais, existe uma clara tendência de aumento da concentração dos gases de efeito estufa. O aumento médio anual estava abaixo de 1 ppm na década de 1960, chegou a 2 ppm na década passada e está em 2,4 ppm ao ano no período 2010-2017. Neste ritmo, a concentração de CO2 na atmosfera pode chegar a 700 ppm no final do século XXI, o dobro da meta de 350 ppm.

O gráfico abaixo, com médias diárias, semanais e mensais mostra que a concentração de CO2 foi de 409,65 ppm em maio de 2017, caiu para 403,38 ppm em setembro de 2017 e subiu para 411,25 em maio de 2018. No atual ano houve 8 semanas com concentração acima de 410 ppm e os meses de abril, maio e junho terão média acima de 410 ppm. Mas no total de 2018, a média deve ficar abaixo de 410 ppm. Porém, esta marca será batida com certeza em 2019, dado o padrão sazonal da curva de Keeling, mas sempre com tendência de alta ao longo de cada ano.

Artigo de Nicola Jones (26/01/2017), no site e360 Yale, apresenta o gráfico abaixo que mostra que a concentração de CO2 ficou abaixo de 400 ppm nos últimos 5 milhões de anos. Somente 200 milhões de anos atrás, a concentração ficou consistentemente acima de 1000 ppm. No ritmo acelerado da atualidade esta marca pode ser atingida no século XXII. Seria o caos climático para os humanos e a biodiversidade da Terra.

Portanto, o mundo está seguindo uma rota perigosa. O aumento da concentração de CO2 na atmosfera contribuiu para o fato de termos 4 anos seguidos (2014 a 2017) de recordes de temperatura. O efeito estufa trará custos enormes e as sociedades podem não estar preparadas para pagar o alto preço de limpar no futuro a sujeira feita no passado e no presente.

O mais grave é que nem as metas modestas do Acordo de Paris, de dezembro de 2015, estão sendo respeitadas. As emissões de gases de efeito estufa (GEE) deveriam diminuir, mas, ao contrário, o mundo continua emitindo grande quantidade de GEE.

Dados do Projeto Carbono Global indicam que as emissões de GEE na China, que tinham caído em 2016, aceleraram ano passado. A China é agora responsável por cerca de um terço das emissões de carbono do mundo. As primeiras indicações para 2018 são de que pode haver um aumento ainda maior, com as emissões de carbono da China no primeiro trimestre saltando 4%, de acordo com uma análise do Greenpeace. O aumento de 2017 deveu-se em parte ao relançamento da dependência da China do crescimento industrial pesado para sustentar a economia e à queda na geração de hidroelétricas em meio a chuvas fracas.

Mesmo se as emissões cessarem globalmente, é provável que o aquecimento ainda atinja pelo menos 1,5 graus, dada a longevidade do dióxido de carbono e outros gases que aprisionam o calor na atmosfera, disse ele.

Sem dúvida, existe uma relação inexorável entre o aumento das emissões de gases de efeito estufa provocado pelo crescimento das atividades antrópicas (crescimento demoeconômico) e o aumento da concentração de CO2 na atmosfera, o aumento do aquecimento global, o aumento do degelo do Ártico, da Antártica, da Groenlândia e dos glaciares - tudo isto - provocando a elevação do nível dos oceanos e o naufrágio das áreas costeiras (urbanas e rurais) de todo o mundo.

Um estudo publicado neste mês de junho de 2018, na revista científica Nature, revelou que a Antártida perdeu 3 trilhões de toneladas de água congelada nos últimos 25 anos, o que provocou um aumento no nível global dos oceanos em 7,6 milímetros. E o pior, o degelo no continente está acontecendo três vezes mais rápido do que antes de 2012, um nível considerado alarmante e que também representa uma ameaça para moradores de áreas litorâneas. Entre 2012 e 2017 a Antártida perdeu um total de 219 bilhões de toneladas de gelo por ano. A elevação do nível do mar já está impactando as áreas litorâneas em todo o mundo e prenuncia o naufrágio das áreas mais povoadas do litoral em todos os continentes.

No ritmo atual do aquecimento global, as gerações futuras vão receber uma herança maldita, que pode provocar uma significativa mobilidade social e ambiental descendente. No longo prazo, o aumento da concentração de CO2 na atmosfera e as mudanças climáticas são as maiores ameaças à vida na Terra e podem ser responsáveis pelo colapso total da civilização.


*José Eustáquio Diniz Alves é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE/IBGE)

Fonte: EcoDebate