Notícias

Mamíferos adotam hábitos noturnos para fugir de humanos

Até atividades comuns, como caminhar em matas, podem interferir na vida selvagem

30 de Julho de 2018
Foto Projeto
Até o urso-pardo teve seu relógio biólogico alterado pela expanção humana.

Devido à expansão urbana e o crescimento populacional desordenado, animais têm dado preferência aos hábitos noturnos para evitar o contato com humanos, segundo estudo publicado recentemente na revista Science. Ao analisar a rotina de 62 mamíferos de seis continentes, compilados em 76 estudos, pesquisadores da Universidade da Califórnia descobriram que a ação do homem causou perturbações profundas na vida selvagem, além da destruição de habitats.

"À medida que a população humana cresce, há menos lugares para os animais viverem suas vidas longe de nossa intervenção. Dadas as nossas tendências, principalmente diurnas, um domínio que permanece menos afetado pelos seres humanos é à noite", pontuou o levantamento.

A estimativa é de que a atividade noturna de animais que dividem suas ações entre o dia e a noite sobe para 68% com a perturbação humana, 18% a mais que o normal. Caça, mineração, agricultura e até caminhadas em matas são algumas das atividades consideradas perturbadoras aos animais.

Das 114 medições realizadas em espécies como veados, coiotes, tigres e javalis, 83% indicaram aumento da atividade noturna. É importante salientar que a mudança de horário não trás apenas incômodo ao animal, mas alterações no ecossistema como um todo. Um exemplo é o urso-pardo (Ursus arctos), que tem alterado suas dinâmicas de caça por causa da preferência pela noite.

Parece uma mudança simples, mas ela é capaz de gerar grande desiquilíbrio visto que a ausência de um predador em determinado horário do dia pode fazer com que uma população de presa cresça indiscriminadamente. Também pode acontecer o contrário, quando, por exemplo, uma espécie herbívora se alimenta durante o dia para escapar de seu predador e, ao mudar de horário, é surpreendida pelo seu algoz.

A pesquisa apresenta outros exemplos, como o da raposa-vermelha (Vulpes vulpes), que vive no centro-sul da Espanha. Em zonas com maior perturbação humana, notou-se que o mamífero diminuiu consideravelmente sua atividade diurna. O efeito disso foi um conflito com o horário de sua principal presa: o coelho selvagem europeu, tipicamente diurno. A sorte é que estas raposas se adaptam com maestria ao ambiente, mas nem todas as espécies são assim.

O grande desafio para os cientistas é prever os impactos dessas mudanças na tentativa de desenvolver estratégias de preservação.