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Invasão de espécies exóticas ameaça equilíbrio de unidades de conservação

Estudo do ICMBio apontou que 48% das UCs federais possuem alguma espécie de fauna exótica, sendo que em 60% das unidades de proteção integral há ocorrência desses animais. Ao todo, 104 espécies invasoras estão presentes em UCs e 59 delas colocam em risco

13 de Setembro de 2017
Foto Projeto
Javali é espécie exótica presente em diversas unidades de conservação / Crédito: arquivo ICMBio

Cães, gatos, cavalos e até um inofensivo peixinho dourado de aquário podem desequilibrar o ecossistema de uma unidade de conservação (UC). Segundo estudo da analista ambiental Tainah Guimarães, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), 48% das UCs federais possuem alguma espécie de fauna exótica, sendo que em 60% das unidades de proteção integral há ocorrência desses animais. Ao todo, 104 espécies exóticas estão presentes em UCs e 59 delas colocam em risco a biodiversidade local.

Espécies exóticas são aquelas que estão fora de sua distribuição natural e foram introduzidas por seres humanos. Geralmente, elas são inseridas com objetivos econômicos (tilápias) ou acidentalmente (navios trazem espécies incrustadas nos cascos). Podem ser ainda animais de estimação abandonados, como gatos, cães, peixes ornamentais, coelhos.

Fatores como dieta flexível, capacidade de gerar vários filhotes por ninhada, baixo intervalo do ciclo de reprodução, dentre outros, ajudam uma espécie a se fixar no novo ambiente e a se propagar. "Espécies invasoras têm uma grande capacidade de adaptação ao local, com um ciclo rápido de maturação e ausência de predadores e parasitas locais", explica Tainah Guimarães.

Com isso, essas espécies conseguem afugentar predadores nativos e serem dominantes no ambiente. Elas também podem alterar paisagens. Na Reserva Biológica do Lago Piratuba, no Amapá, por exemplo, búfalos criaram um igarapé, pois seu padrão de movimentação provoca valas no solo.

O manejo é feito por meio da prevenção da entrada dessas espécies, erradicação da população e controle, que pode ser feito por castração, abate ou introdução de agentes como patógenos ou predadores naturais.

Javali

O javali é uma espécie invasora presente em dezenas de UCs pesquisadas. Introduzido nos anos 90 como carne de corte, a população desses animais rapidamente se alastrou pelo país. Ele invade plantações e fuça áreas de preservação permanente em busca de alimentos, principalmente tubérculos. Pelo seu grande porte e ferocidade, os únicos predadores capazes de matá-lo são as onças pintadas e pardas, cujas populações nos estados atingidos é exígua devido justamente à caça, desmatamento e queimadas.

Desde 2013 está liberada a "caça controlada" do javali. A liberação teoricamente baseia-se em controle rígido dos órgãos ambientais, tanto para evitar morte de outras espécies, como crueldade. No entanto, não é o que acontece. Os caçadores utilizam inclusive cachorros, tornando a caça um espetáculo de sangria e tortura, com animais sendo despedaçados vivos.

Tainah Guimarães cita ainda no estudo a insegurança. "Os gestores têm receio em autorizar a caça, pois nunca sabem se eles vão se valer da autorização para caçar espécies não permitidas".

Animais domésticos

Unidades localizadas perto de cidades costumam abrigar um grande número de espécies exóticas. Isso ocorre porque há a entrada de animais domésticos provenientes de fuga ou abandono. "O fato de ter muitas unidades em torno de conglomerados urbanos facilita a propagação dessas espécies", conta.

Cães, gatos, peixes ornamentais, cabras, porcos, cavalos e jumentos são comuns em áreas de conservação. As pessoas costumam abandoná-los nesses locais, o que pode causar grande desequilíbrio ambiental, já que eles acabam se multiplicando. Outro fato preocupante é a soltura indiscriminada de animais exóticos à fauna brasileira, como lagartos geckos, espécies variadas de cobras e aranhas.

Em Fernando de Noronha, o desafio atual está em conter a população de gatos. O animal é capaz de se reproduzir com facilidade (maturação sexual ocorre a partir dos cinco meses) e até 12 filhotes nascem de uma vez. Além disso, o gato rapidamente entra num estado feral (quando perdem as características domesticadas) e tem uma alimentação variada.

A solução foi capturar os animais e encaminhá-los para doação. Entretanto, essa saída nem sempre é viável, especialmente com gatos ferais. Dificilmente eles conseguem ser domesticados e correm o risco de serem abandonados novamente.

Peixe-leão e chital

De acordo com o estudo, o ICMBio tem dois grandes desafios pela frente. Um deles é o peixe-leão, uma espécie recentemente introduzida no país. O animal é um predador voraz e também venenoso. Geralmente o manejo de espécies aquáticas se revela desafiador por ter rápida propagação.

Outro animal introduzido há pouco tempo é o chital. Proveniente da Ásia, essa espécie ficou famosa por ser a mesma do personagem Bambi, da Disney, e sua propagação para finalidade de caça é mundial.


Com informações do ICMBio