Notícias

Muro de Trump na fronteira entre México e EUA ameaça biodiversidade

Construção limitaria movimentos dos animais, causando prejuízos para todo ecossistema

17 de Abril de 2017
Foto Projeto
Antilocapras de Sonora em reserva ambiental na fronteira entre México e Estados Unidos / Crédito: Miguel Angel Grageda/AFP

O grande muro de concreto que Donald Trump pretende construir na fronteira entre México e Estados Unidos contra imigrantes ilegais e narcotraficantes pode gerar prejuízos ao ecossistema local e até o desaparecimento de flora e fauna.

Veados, jaguatiricas, coiotes, antilocapras, gatos bravos e lobos cruzam constantemente esta via, em uma zona ecológica protegida por ambos os governos. Ao norte, na americana Arizona, se encontra o Cabeza Prieta National Wildlife Refuge e, ao sul, na mexicana Sonora, a Reserva da Biosfera El Pinacate e Grande Deserto de Altar, declarada patrimônio da humanidade pela Unesco.

Estes santuários abrangem 90 km dos mais de 3.000 km da fronteira e, diferentemente de outros trechos, não têm cerca metálica. Há apenas uma cerca simples, "desenhada especialmente para não lastimar a fauna, para que não haja problemas para cruzar", segundo Miguel Ángel Grageda, responsável de recursos naturais de El Pinacate.

Nesta zona, onde a temperatura atinge 55°C, as chuvas são cada vez mais escassas, o que obriga os animais a percorrerem grandes distâncias além da fronteira em busca de água, alimento e abrigo.

Grandes mamíferos endêmicos e em risco de extinção, como o antilocapra de Sonora, de pelagem cor de mel, e o carneiro selvagem, com chifres em espiral, seriam os primeiros a sofrer as consequências do muro.

"Se você coloca um muro fronteiriço gigante no meio do seu hábitat, o fluxo migratório para algumas espécies seria cortado, o que as impediria de recolonizar seu território", alerta Aaron Flesch, especialista da Universidade de Arizona.

De acordo com Flesch, em algumas zonas do deserto, espécies chegam a desaparecer de forma pontual após uma temporada de seca ou doenças. "E se os animais não podem cruzar o seu território para recolonizar esses lugares, a população nesses pontos jamais será restaurada", alerta.

Bloquear a passagem dos animais provocaria ainda o empobrecimento paulatino da sua diversidade genética. "Se dividimos a população em dois, vão começar a haver cruzamentos entre parentes, e mais adiante poderíamos ter problemas de consanguinidade", alerta Grageda.

Todo o ecossistema seria afetado se estes mamíferos tivessem seus movimentos limitados. Muitos deles são capazes de romper com suas patas a costra que se forma na terra do deserto após vários anos sem chuvas, ajudando a água a permear o subsolo. Os herbívoros agem como dispersores de sementes, de modo que a perenidade da flora local também depende do seu livre fluxo.

Várias ONGs mexicanas e americanas preparam uma ofensiva contra a iniciativa de Trump. "Não sabemos com exatidão quais serão os resultados. Mas sabemos que não serão bons", diz Flesch.


Com informações da AFP