Cerca de 40% dos primatas brasileiros estão ameaçados de extinção

O sauim-de-coleira é um dos mamíferos mais ameaçados do bioma amazônico/Crédito: Maurício Noronha.

Em Madagascar, 90% da fauna primata corre risco de desaparecer. Na Indonésia o índice é de 83%.

 

Mais de 65% dos primatas do mundo têm como habitat países tropicais, como Brasil, Madagascar, Indonésia e República Democrática do Congo. Ao todo, 286 espécies dependem desses locais para sobreviver, mas atividades humanas insustentáveis foram responsáveis por enquadrar 60% delas em algum grau de ameaça de extinção. O alerta foi dado por um grupo de 72 pesquisadores em estudo publicado recentemente na revista científica PeerJ.

A perda e fragmentação de habitats são apontadas como as principais ameaças aos 102 primatas do Brasil, 100 de Madagascar e 48 da Indonésia. No Congo, a caça comercial de carne silvestre é a grande responsável pela queda nas populações das 36 espécies residentes no país.

Em todos os casos, o declínio populacional também tem ligação com a expansão agrícola, mineração e extração de combustíveis fósseis, comércio ilegal, proliferação de espécies invasoras, expansão urbana e doenças infecciosas provenientes de animais domésticos e humanos. Até baixos níveis de IDH e desigualdade social são fatores que colocam os animais em risco.

Em Madagascar, único habitat dos lêmures, 90% da fauna primata corre risco de desaparecer. Na Indonésia, o índice é de 83%; seguida do Brasil, com 39%; e Congo, com 17%. Mesmo os macacos que não correm risco iminente de extinção sofrem com a baixa nas populações. O levantamento indicou que em Madagascar 97% das espécies diminuem a cada ano. Na Indonésia a proporção é de 94%; Brasil 48%; e Congo 39%.

Na pior das hipóteses, ao longo do século a expansão da atividade agrícola poderia encolher o habitat dos primatas em 78% no Brasil, 72% na Indonésia, 62% em Madagascar e 32% no Congo. Os números foram obtidos através de uma modelagem espacial, feita para identificar zonas de possível conflito entre a produção agrícola e o habitat dos macacos em cada país.

O estudo também constatou que a fauna primata encontra-se desprotegia, considerando que a maioria das espécies ocorre fora de unidades de conservação. No Brasil e em Madagascar, 38% dos animais estão em áreas protegidas. Na Indonésia o número cai para 17% e, no Congo, para 14%. Os autores ressaltam que os cálculos mostram a vulnerabilidade dos primatas nesses países, fruto de uma fraca governança que pode limitar o planejamento eficaz de conservação.

Espécies

A derrubada de floresta para obtenção de madeira significa menos alimento e menos abrigo para os animais. Já a mineração, além da degradação das florestas, polui o solo e as águas subterrâneas. No Congo – local onde a caça está acabando com os gorilas (Gorilla gorilla) e os bonobos (Pan paniscus)   a mineração se tornou outra ameaça para a biodiversidade.

No país africano, as grandes reservas de tântalo (metal utilizado em eletrônicos) atraíram grandes mineradoras, causando a destruição de comunidades inteiras de gorilas-de-grauer (Gorilla beringei graueri) e chimpanzés orientais. Em Madagascar, a mineração ilegal de níquel, cobalto, ouro e pedras preciosas  nas florestas e até em áreas protegidas – afetou principalmente o lêmure-de-cauda-anelada (Lemur catta).

Na Indonésia, a mineração de ouro põe em perigo espécies como o macaco-narigudo (Nasalis larvatus) e o gibão-cinza (Hylobates muelleri). As concessões de áreas florestais para madeireiras e mineradoras, principalmente nas ilhas de Sumatra e Bornéu, também ameaçam primatas arbóreos como os lóris-lentos (Nycticebus spp.) e os orangotangos (Pongo spp.)

No Brasil a situação se repete. Só na Amazônia brasileira, entre 2005 e 2015, a mineração foi responsável por 9% por toda a perda florestal. Como consequência, espécies dependentes do bioma, como o saium-de-coleira (Saguinus bicolor) e cuxiú-preto (Chiropotes satanás), estão criticamente em perigo de extinção. No restante do Brasil também estão ameaçados o guigó-da-caatinga (Callicebus barbarabrownae) e o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus), endêmicos do país.

Possibilidades

Para os pesquisadores, a preocupação com os primatas é extremamente importante, pois são vitais na manutenção da biodiversidade. Sem eles muitas espécies da flora, essenciais para regeneração de florestas, deixariam de ser dispersas. Por isso, o estudo apresenta algumas alternativas para conservação da ordem.

O grupo propõe expandir as áreas protegidas; promover conexão entre habitats por meio de corredores ecológicos; restaurar de florestas nativas; dar espaço para as energias limpas e práticas de sustentabilidade; e exigir que organizações e países consumidores compensem os danos ambientais que provocam com um tipo de “fundo ambiental”.

"A curto prazo, a aplicação efetiva da lei para deter a caça ilegal e a destruição ilegal de florestas é fundamental. O sucesso a longo prazo só pode ser alcançado com a conscientização pública local e global e com a interação com organizações internacionais, empresas multinacionais e nações consumidoras para reduzir as demandas insustentáveis ​​sobre o meio ambiente", concluíram.

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