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Brasil permite quantidade até 5 mil vezes maior de agrotóxicos do que Europa

Entre os 504 agrotóxicos usados no país, 30% são proibidos na União Europeia, alguns há mais de uma década

05 de Dezembro de 2017
Foto Projeto
Crédito: Plantas Exóticas

Desde 2008 o Brasil é campeão mundial no uso de agrotóxicos. Conforme estudos do Instituto Nacional do Câncer (Inca), cada brasileiro consome cinco litros de veneno por ano. Como se não bastasse, pesquisa inédita revela uma diferença assustadora entre a legislação brasileira e da União Europeia no que diz respeito aos níveis de resíduos permitidos na água e nos alimentos. Os dados estão compilados no estudo "Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia", da pesquisadora Larissa Mies Bombardi, do Laboratório de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo.

Segundo levantamento, o Brasil tem 504 agrotóxicos de uso permitidos. Desses, 30% são proibidos na União Europeia - alguns há mais de uma década. Esses mesmos itens vetados estão no ranking dos mais vendidos. O acetato, tipo de inseticida usado para plantações de cítricos, é o terceiro da lista. Uma nota técnica da Anvisa citada no estudo de Bombardi mostra que o acetato causa a chamada "síndrome intermediária", que provoca fraqueza muscular dos pulmões e pescoço. Em crianças, o risco é mais acentuado.

A contaminação da água é o que mais chama atenção, com a lei brasileira permitindo limite 5 mil vezes superior ao máximo permitido na água potável da Europa. No caso do feijão e da soja, o Brasil permite o uso no cultivo de quantidade 400 e 200 vezes superior ao autorizado na Europa.

"Infelizmente, ainda não é possível banir os agrotóxicos. Por isso, é importante questionar por que o governo brasileiro não usa parâmetros observados no exterior", afirma Bombardi, para quem a permissividade em relação à água "é uma barbárie". Para Brian Garvey, da Universidade de Strathclyde, da Escócia, e orientador de Bombardi na pesquisa, as autoridades brasileiras "lavam as mãos da toxidade".

Consumo

O Brasil consome 20% dos agrotóxicos comercializados mundialmente. Entre 2000 e 2014, o país saltou de cerca de 170 mil toneladas para 500 mil, aumento de 194% em 15 anos. De acordo com o estudo, nos estados de Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás e Mato Grosso o consumo do herbicida glifosato fica entre 9 kg e 19 kg por hectare. Análises feitas com animais mostraram que a exposição ao produto causou câncer de mama, necrose de células e reduziu o tempo de vida dos bichos. Em setembro deste ano, a França anunciou que banirá o glifosato até 2022.

Mesmo em casos em que o agrotóxico é permitido em ambos os países, a quantidade usada é menor, como é hoje o caso do glifosato, líder brasileiro de vendas. Enquanto na Europa é permitido usar até 2 kg de glifosato por hectare, a média brasileira fica entre 5 kg e 9 kg. Entre 2009 e 2014, o consumo subiu 64%, de 118 mil toneladas para 194 mil. Em 2014, o Mato Grosso liderou as compras, seguido por Paraná e Rio Grande do Sul.

Contaminação

Segundo o estudo de Bombardi, oito brasileiros são contaminados por dia. Trabalhadores rurais são as principais vítimas, seguidos por quem vive em regiões próximas às plantações. Pesquisa da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) estima que, para cada caso registrado, 50 não foram. Isto quer dizer que mais de 1 milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxicos entre 2007 e 2014, sendo que um quinto das vítimas é criança ou adolescente.

Para Bombardi, os casos de intoxicação são a "ponta do iceberg". "A intoxicação representa 2% do total de problemas de saúde que podem acometer a sociedade. As doenças crônicas não são estudadas como deveriam", critica.


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