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Quatro milhões de animais silvestres são traficados por ano no Brasil

Crimes praticados contra a fauna foi o tema da última Terça Ambiental deste ano, que teve como palestrante Marcelo Amarante, da Semad

09 de Novembro de 2017
Foto Projeto
Marcelo Coutinho Amarante, Diretor de Fiscalização de Recursos Faunísticos e Pesqueiros da Semad / Crédito: Amda

No Brasil, em média 4 milhões de animais silvestres são traficados por ano e 38 milhões são retirados ilegalmente da natureza. Os dados alarmantes foram compartilhados por Marcelo Coutinho Amarante, Diretor de Fiscalização de Recursos Faunísticos e Pesqueiros da Semad na última Terça Ambiental deste ano, ocorrida em 7 de novembro.

Segundo o Relatório Nacional sobre o Tráfico de Fauna Silvestre, a atividade movimenta de US$ 10 a 20 bilhões de dólares em todo o planeta, sendo o Brasil responsável por 5% a 15% desse montante. O tráfico de animais só fica atrás do tráfico de drogas e armas. Para o diretor, o crime é tão frequente por que o custo-benefício é vantajoso para o traficante. As multas determinadas pela legislação brasileira são bem menores que o valor comercial dos animais. No caso dos pássaros, o preço de algumas espécies chega a alcançar entre R$ 40 mil e R$ 60 mil, segundo Amarante. Quanto mais rara, maior seu valor.

A maior parte das capturas ocorre no Maranhão, Bahia, Ceará, Piauí e Mato Grosso. São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais são os maiores consumidores, respectivamente. Os criminosos fazem de tudo para despistar as autoridades, prendendo os animais em garrafas pet, sacolas plásticas, tubos de PVC e até mesmo garrafas térmicas. Outra imagem apresentada por Amarante mostra um homem com animais presos em meias finas amarradas em volta de sua cintura. Nem os filhotes escapam. A cada 10 animais traficados, apenas um chega vivo até o consumidor final.

Amarante comentou também sobre o caso Lóris, espécie de primata encontrada apenas na Ásia que faz sucesso entre os famosos. De pelo curto e sedoso e olhos grandes, ele se parece com um bichinho de pelúcia. Após capturá-lo na floresta, seus dentes são arrancados a sangue frio no intuito de evitar sua mordida venenosa. O processo pode matá-lo de infecção ou perda de sangue, e também impede que seja devolvido à natureza. A cantora Rihanna foi duramente criticada nas redes sociais após postar foto com um lóris.

Espécies exóticas invasoras são a segunda maior causa de extinção de espécies, atrás apenas da destruição de habitats. Um exemplo apresentado por Amarante é o mexilhão-dourado, que tem causado grandes transtornos a usinas hidrelétricas. Por sua grande capacidade de reprodução e dispersão, além de praticamente não ter predadores na fauna brasileira, o mexilhão se espalha com rapidez e consegue entupir sistemas de água, causando interrupções frequentes para limpeza.

O diretor participa ativamente das ações de fiscalização e o que não falta são casos de crueldade. Amarante já encontrou um cavalo amarrado em arame farpado e um jabuti preso em uma espécie de poço minúsculo construído com tijolos, cheio de lodo e com espaço apenas para uma poça d'água. Em outra ocasião, registrou um criatório irregular que mantinha pássaros presos em caixas de isopor ouvindo incessantemente a gravação de seu canto para "aprenderem". Até um vereador já foi flagrado com três capivaras mortas e pássaros.

Além do tráfico, os ilícitos mais praticados são cativeiro irregular, maus tratos, portar ou guardar instrumentos para caça, transportar fauna silvestre sem autorização e caçar. A caça de animais silvestres é proibida no Brasil há 50 anos, mas o deputado federal Valdir Colatto quer revogar a lei. Para Amarante, o Projeto de Lei 6268/16 propõe "coisas absurdas", como a possibilidade de caça dentro de unidades de conservação utilizando cachorros. Além de a atividade ser ilegal, Amarante lembrou o risco de introdução de doenças no ambiente natural, como leptospirose.