Espécie da vez

Saium-de-coleira está entre os mamíferos mais ameaçados da Amazônia

Destruição de habitat e competição interespécies são fatores preocupantes

Foto Institucional Crédito: Maurício Noronha
27 de Novembro de 2017

O Brasil abriga a maior diversidade de primatas do planeta, de acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), porém  quase 20% desses animais constam na Lista Oficial das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção. Destes, dez são considerados criticamente em perigo, incluindo o sauim-de-coleira (Saguinus bicolor). Esse pequeno animal é um dos mamíferos mais ameaçados do bioma amazônico, ecossistema que abriga 70 espécies e subespécies de primatas diferentes.

O saium é endêmico do Brasil, ocorrendo no estado do Amazonas, onde é residente e nativo. Estima-se uma redução de pelo menos 80% da população deste sagui desde 1997. Perda de habitat e competição interespécies são os fatores mais significativos para tal fato.

O primeiro é decorrente da urbanização desordenada da cidade manauense, propiciada pela instituição da Zona Franca de Manaus. Com os incentivos fiscais promovidos pelo governo federal, inúmeras indústrias foram instaladas na região, provocando grande desmatamento e fragmentação da floresta. Já a competição interespécies refere-se à presença de outro tipo de sagui que disputa território com o saium-de-coleira: o sagui-de-mãos-douradas (Saguinus midas).

Outras ameaças também contribuem para a vulnerabilidade da espécie, como incêndios, assentamentos rurais, predação por espécie doméstica (cães), poluição de ambientes, tráfico ilegal de fauna silvestre, atropelamentos e eletrocussão na rede de energia urbana.

Reprodução

Neste mês, um casal de sauim-de-coleira conseguiu se reproduzir em cativeiro no Parque Ecológico de São Carlos, interior de São Paulo. O casal foi enviado ao parque em setembro deste ano como parte de um programa de manejo da espécie. Nasceram dois filhotes, de sexos ainda desconhecidos. O destino desses e futuros filhotes ainda será definido. O zoológico de Bauru, no interior de São Paulo, também conseguiu reproduzir o saium-de coleira.

Sauim-de-coleira

Também conhecido como sauim-de-manaus, sagui-de-duas-cores e sagui-de-cara-nua, essa espécie é considerada de pequeno porte. Mede entre 21 a 23 cm de comprimento, sem contar a calda, que vai de 33 a 42 cm. Seu peso varia entre 450 a 600 gramas. Atingem maturidade sexual entre dois e três anos e costumam se relacionar com vários parceiros, mas somente as fêmeas alfas procriam. A gestação dura pouco mais de cinco messes, dando origem, quase sempre, a gêmeos.

Esses primatas costumam viver em grupos de dois a 13 indivíduos, sendo mais comuns grupos entre quatro e sete. Raramente são vistos indivíduos solitários. Possuem comportamento territorial extremamente acentuado, podendo ocorrer confrontos físicos entre grupos vizinhos, mas internamente há pouca disputa. Quando os filhotes nascem, todos os integrantes do grupo ajudam na criação, ensinando-os a caçar e se alimentar. Entretanto, o pai é quem assume maior protagonismo: ele cuida dos jovens a maior parte do tempo e só os entrega à mãe para mamar.

O nome científico bicolor refere-se às cores de sua pelagem, que são basicamente branco e marrom-alaranjado. A parte de cima do corpo, incluindo braços e pescoço, tem a pelagem branca. Já a parte inferior, como barriga e pernas, apresenta a mistura de laranja com marrom. A cabeça e a face não possuem pelos. Outra característica peculiar é que, com exceção do dedo polegar, suas unhas são como garras bem afiadas, apropriadas para escalar árvores.

Sua dieta é composta de pequenos vertebrados (anfíbios e lagartos), ovos, filhotes de aves, insetos, frutos, goma de algumas árvores e, eventualmente, néctar e flores. Possui comportamento diurno, iniciando suas atividades pouco depois do amanhecer. No início da tarde, quando o sol está mais quente, gosta de tirar um cochilo.

Habita florestas primárias, secundárias (capoeira), campinas e campinaranas. A espécie também pode viver em áreas antropizadas como pomares, plantações arbóreas e arbustivas. Apresenta distribuição geográfica restrita aos municípios de Manaus, Rio Preto da Eva e Itacoatiara, todos no Amazonas, cobrindo cerca de 7.500 km².

A espécie está presente em 18 unidades de conservação, sendo metade privada e a outra parte pública. Juntas, elas abrangem cerca de 20% da área de distribuição do saium. Contudo, de acordo com o Sumário Executivo do Plano de Ação Nacional para a Conservação do sauim-de-coleira, essas UCs apresentam tamanhos e categorias inadequados à conservação da espécie.