Diferença Ambiental

Deco, o "botânico" do Parque Estadual do Rio Preto
Foto Institucional Crédito: arquivo pessoal
13 de Julho de 2016

José Hermínio Inácio, mais conhecido como Deco, trabalha no Parque Estadual do Rio Preto desde a sua criação, em 1998. Deco construiu, com as próprias mãos, a estrada de oito quilômetros que dá acesso à unidade de conservação e viu a população rural aprender a amar e preservar o parque.

Deco hoje é conhecido por seu vasto conhecimento das plantas do Cerrado. Ele sabe praticamente todos os nomes científicos e comuns das plantas e é o guia preferido dos pesquisadores que vão ao Rio Preto.

Amda - Como foi sua infância antes da criação do parque?

Deco -
Nasci e cresci no Santo Antonio (distrito de São Gonçalo do Rio Preto), na roça, então fazia de tudo um pouco, catava sempre-viva e frutos do Cerrado para vender, por exemplo. Antes de criar o parque, dezenas de famílias viviam aqui e cada um sobrevivia como podia. Tinha tanta gente que criaram até um comércio debaixo das pedras. Quando o parque foi criado, esses comércios ainda existiam. Depois, quando o país deu uma melhorada, é que começaram a surgir mais oportunidades de emprego e a vida foi melhorando para o pessoal da roça. De lá pra cá, tudo ficou melhor.

Amda - Como era feita a colheita de sempre-viva?

Deco -
Era à base do fogo. Sempre-viva não combina com preservação. Ela gosta de queimada, de boi; ela não aguenta competir com o capim. Antes, na entrada do parque, você via tudo branquinho, você via quase 40 pessoas coletando sempre-viva, mas era tudo devastado, queimava todo ano. Com tanta queimada, a quantidade de sempre-viva deve ter reduzido mais que 80%.

Amda  - O parque foi criado em 1994. Na época, qual era sua opinião a respeito?

Deco -
Eu toda vida tive visão. Para mim, a criação do parque foi uma coisa muito importante. Nós vendemos a propriedade da minha família para o parque: 814 hectares. Toda a família apoiou.

Amda - Você nunca quis cortar as árvores da propriedade da sua família. Como você acha que desenvolveu esse amor pela natureza, diferente da maioria naquela época?

Deco -
Tem uns lugares que eu gosto de respeitar. Todo o nosso terreno tem nascentes, inclusive que abastecem Santo Antonio. Então, mais do que querer preservar, sei que é preciso cuidar dessas áreas tão importantes para o meio ambiente.

Amda - Como o parque mudou a vida da sua família?

Deco -
O parque foi muito importante pra nós. Melhorou em tudo: ganhamos conhecimento, conhecemos outras pessoas e conquistamos novas amizades. A gente não se importava, por exemplo, se tinha lixo espalhado. Hoje, nós fazemos questão de cuidar do parque. A gente tinha vergonha de todo mundo da cidade, e depois que a gente começou a trabalhar no parque, vimos que somos iguais a todo mundo.

Amda - Logo após a criação do parque, você começou a trabalhar com o Tonhão, gerente do Rio Preto. Como foi isso?

Deco -
Quando criou o parque, não tínhamos muita opção de serviço. Eu fiz uns trabalhos para a prefeitura, como a estrada que dá acesso ao parque. Em quatro meses, nós construímos, à mão, uns oito quilômetros de estrada. Quebramos pedras enormes para fazer a borda da estrada. Muita gente não acreditava que ia dar certo, mas o Tonhão acreditou na gente.

Amda - Você se tornou um verdadeiro botânico do parque e conhece praticamente todas as plantas pelo nome científico e comum. Até os pesquisadores querem você como guia quando vão ao Rio Preto. Conte-nos um pouco como foi essa trajetória.

Deco -
Cada pessoa nasce com um dom, né? E eu acho que isso é um dom meu. Fui muito incentivado por um professor, Gilberto Predalha. Ele me deu minha primeira cadernetinha. Comecei a ganhar uns livros, o que me ajudou muito também. Tenho muito conhecimento do Cerrado, das plantas do bioma.

Amda - Hoje o fogo no parque diminuiu bastante. Você acredita que essa mudança é resultado de uma maior conscientização da população?

Deco -
O parque parou de ser destruído pelo fogo em função do trabalho de combate às chamas, e não porque a consciência está maior e o povo tem colocado menos fogo no meio ambiente. Em 98, tivemos um grande incêndio no parque. Eu ainda trabalhava na construção da estrada, mas lembro-me que não tinha equipamentos, nem bomba-costal para o combate. O estrago foi bem grande. No ano passado, tivemos um pequeno acidente com um colega, o Zé Rubens. Ele escorregou e caiu um pouco antes do fogo. Foi uma das cenas mais feias que já vi.

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